AMOR – PORTO SEGURO PARA TRANSGRESSÃO*
Santo, santo, santo é o amor,(...)
Que pode contra ele o excremento?
Mesmo a rosa, que pode a seu favor?
Se “cobre a multidão dos pecados e é benigno,
Como a morte duro, como o inferno tenaz”,
Descansa em teu amor, que bem estás.
Entrevista (p.212)
Os casamentos são tristes porque externam
à vista de testemunhas
a mais funda ânsia de perenidade (...)
Signos (p.280)
Adélia PRADO. Poesia reunida
Raquel Passos Villa nasce, como pessoa de papel, de mãos femininas situadas na derradeira década do século XX. Sua existência ficcional, entretanto, está contextualizada em fins do século XIX, época em que histéricas mulheres eram objeto de investigação do inquieto Dr. Freud que, durante trinta anos, se perguntou, sem se sentir satisfeito com as respostas alcançadas, sobre o que é a mulher e o que ela deseja, acabando por deixar aos poetas a tarefa de decifrar o feminino. Sabe-se, hoje, que a histeria era um grito através do corpo contra as forças opressoras que impossibilitavam na mulher o exercício de seu desejo como sujeito, tornando-se um movimento de determinação de qualquer comportamento feminino que fosse de encontro ao ideal de esposa e mãe, como patológico[1].
Pelas vias da escrita literária, uma voz narrativa feminina, em O último cais[2], romance de estréia da jornalista Helena Marques e prêmio da APE/92, recorda e lê a caminhada de outras mulheres que a anteciparam no percurso genealógico e no espaço cultural madeirense, tomando como ponto de referência uma figura de exceção e não uma mulher que confirmasse a regra. Escolhe Raquel, neta de André Villa e mulher de Marcos Vaz de Lacerda que, atraído pelo gosto insurrecto da mulher que amava, ao presenteá-la certa vez com um estojo de toucador, explicou-lhe as siglas de seu nome gravadas na escova de prata:
‘Tive vontade de mandar gravar RVL, Raquel Vaz de Lacerda, mas arriscava-me a perder-te para sempre. Podemos mandar alterar ao gravador, se quiseres.’ Mas Raquel recusara, como se tratasse de um testemunho da sua individualidade. As escovas e o espelho chegariam um dia, talvez, às mãos de uma mulher mais livre do que ela, uma neta, uma bisneta, que saberia da existência de uma Raquel Passos Villa e dos seus sonhos inocentes e proibidos. E essa, essa sim, poderia partir sozinha à descoberta de La Valetta e das raízes maltesas que desabrochavam em mulheres de cabelos cor de vinho velho, olhos cinzentos e resoluta insubmissão. p.27 (grifos meus).
A satisfação em receber gravadas no presente as iniciais do seu nome de solteira pode-se constituir uma insignificante contravenção aos olhos de mulheres de hoje, contemporâneas da autora do romance, que presenciaram ou encenaram ousados gestos de luta pelo direito e respeito à subjetividade feminina. Naquele momento, contudo, fazia-se um expressivo e singular testemunho de sua individualidade, surpreendentemente acolhido, por antecipação, pelo marido Marcos. Há em Raquel o saber propor mudanças sem agredir completamente os códigos; a esperança de pressentir que o futuro será mais tolerante com a alma e com o corpo femininos; a confiança de que, embora pequenas, resolutas insubmissões de ovelha (em hebraico, o nome Raquel significa ovelha[3]) discreta e não-desgarrada podem operar resultados mais imediatamente eficazes do que uivos de loba, especialmente quando se vivifica o amor no corpo e na afinidade de espírito:
Raquel, que nunca saiu sozinha, nem para o colégio, nem à missa, nem às visitas, nem às compras, não consegue imaginar bem essa posse total de si própria que será estar só no meio de desconhecidos, sem preocupar-se com os cumprimentos de quem passa, com olhos suspeitosos atrás de persianas, com as perguntas incessantes das mil primas com quem cruza a cada esquina. Debruçada à janela, olhando o mar, Raquel saúda, para além do tempo, essa bisneta – chamar-se-á talvez Raquel, ou Benedita, quem sabe – que atravessará mares e convenções e fará a prodigiosa descoberta da solidão voluntária e escolhida. Invejo-te, minha filha, minha neta, minha irmã, tu que já não serás Penélope. p.28 (Grifos meus)
A janela projeta Raquel para o futuro, lança-a para além do horizonte e do tédio (p.29), embora sua face interior a conserve presa ao presente, à posição de Penélope. Seu pensamento, porém, sobrevoa livre os mares do tempo e das convenções e saúda a nova mulher que há de se erguer do movimento dinâmico das ondas da civilização humana, impulsionadas pelas lutas feministas que estavam por surgir. As águas do mar refletem suas expectativas, porque para uma Penélope, elas trazem, em seu ir e vir infinito, ventos e turbilhões anunciadores de mudanças no rumo dos acontecimentos, despertando esperanças de boas novas. As pequenas insubordinações que empreende serão, desta forma, seu legado às futuras descendentes de sua genética e de sua vivência insular.
O discurso indireto, inicialmente conduzido por narrador em terceira pessoa que, acompanhando em total onisciência o fluxo dos pensamentos de Raquel, se deixa contaminar totalmente pela voz interior da personagem. Marca-se, então, lingüisticamente pela primeira pessoa do discurso e projeta a saudação que Raquel, pela janela de seu tempo pessoal e psicológico, envia à futura descendente. A fusão da voz narrativa com a de “sua” personagem não denunciaria o acolhimento, do lado de cá do tempo, da fala de sua personagem ancestral? Não estaria a narradora respondendo à Raquel que seu desejo, mesmo tardiamente, se cumprira em outro tempo, mais uma vez, finissecular? A prodigiosa descoberta da solidão voluntária e escolhida, sonhada por Raquel, parece ter-se cumprido, por exemplo, nas personagens femininas, Laura e Natália, em A deusa sentada e Terceiras pessoas, romances posteriores da mesma autora.
Mesmo sem atravessar mares e convenções, não ficou essa Penélope a tecer sua mortalha. Nas ausências prolongadas de Marcos, médico e marinheiro voluntário, Raquel ousa recriar com águas de banho e cânticos do Cântico dos Cânticos, eróticos encontros, revigorando com fios de prazer e ternura experimentados, o tempo de saudades:
Toma um banho vigoroso e repousante, deixando as recordações mergulharem molemente na suavidade de outras manhãs. Pensamentos eróticos, pensa com risonha malícia, lembrando os banhos que sempre tomam juntos, Marcos e Raquel, Raquel e Marcos, gozando o prazer de se verem e tocarem, sublinhando a doçura da água com a evocação do Cântico dos Cânticos, no seu diálogo de amor. p.28
Situada em um tempo e numa sociedade insularmente contida e provinciana, em que à mulher não era dado sequer o direito de escolha do marido, Raquel vive a contravenção de sentir prazer e alimentar situações e pensamentos eróticos, estimulando-se com a força sensual da água e dos cânticos da lírica pastora de Salomão. Os versos são entoados e recordados como gesto de transgressão, pois que o caráter atribuído aos poemas de “texto inconveniente” ao livro sagrado repercutiu sempre em discussões rabínicas e em interpretações medievais e modernas: O cândido caráter erótico de grande parte do livro causou dificuldades desde os tempos antigos; e deve-se acrescentar que há mais simbolismo erótico do que se percebe na superfície[4]. Entretanto, mesmo exegetas modernos procuram justificar sua presença entre os textos do Antigo Testamento alegando que, como a poesia erótica não pode se encontrar num livro sagrado e inspirado, o livro dos cânticos deve ter outra significação além de sua interpretação literal[5], sendo definido, por isso, como parábola ou alegoria. Evocar, portanto, os cânticos salomônicos como expressão ou estímulos eróticos constitui para uma mulher do século XIX, senão um signo de ousadia, ao menos, de impertinência.
Envolvidos por uma sociedade laica e eclesiasticamente insular, Raquel Villa e Marcos Vaz de Lacerda ultrapassam as barreiras de sua sócio-geografia. Embora católicos participantes, não assimilaram a repulsa ao sexo que, por muitos séculos, contaminou o pensamento da Igreja e de seus seguidores, tementes do pecado que os prazeres da carne pudessem avivar. Para além disso, não atendiam ao discurso normativo de seu tempo que continuava impondo como conduta moral, para além do medievo, a prática do sexo apenas para a procriação.
Raquel, portanto, na intimidade, transgride os códigos vigentes impostos às mulheres casadas e explora, no universo que lhe foi possível, a aventura da sensualidade e do erotismo desfrutados em parceria com Marcos. O tecido narrativo não lhe recusa o direito de desfrutar em igualdade o prazer vivenciado por ambos. Evitando privilegiar o gozo masculino, a voz narrativa alterna os nomes dos amantes na expressão: lembrando os banhos que sempre tomam juntos Marcos e Raquel, Raquel e Marcos. Pequenas sutilezas de linguagem que, sem dúvida, enfatizam o sabor (com)partilhado do amor, assentado na igualdade, na parceria e na reciprocidade.
Numa sociedade tão ferozmente moralista e tão pesadamente clerical (p.29), Raquel entendia que sua liberdade, possivelmente menos conventual que à de outras mulheres de seu tempo, era demarcada de modo insular, mas se vê, em contrapartida, como alguém que desfruta de alguns privilégios concedidos pela vida ou por ela conquistados:
É certo que não foi ela quem teve a liberdade de partir, nem para África, nem para Malta, nem para lado nenhum para lá do horizonte e do tédio. Apesar disso, reconhece lucidamente que é mais feliz do que a maioria das mulheres: espera o homem que continua a amar, com quem quis casar e de quem quis ter filhos, um homem que ainda acha excitante tomar banho com ela e rir-se ternamente da poderosa e poética sensualidade do rei Salomão. pp. 28/29
Mesmo não possuindo ou não conquistando a liberdade de partir e de atravessar os mares das imposições morais, Raquel, por estar ancorada no porto seguro do amor de Marcos, atreve-se a provocar seus pequenos desaforos, gestos de subversiva inocência, além de se permitir o direito ao questionamento das normas que regem a vida das mulheres de seu tempo:
(...) O sexo feminino, divaga Raquel com subversiva inocência, tem afinal duas componentes, as mulheres e as senhoras. Até nos actos de nascer, parir ou morrer há diferenças – ou injustiças? A capa(...) foi outro dos seus desaforos, para utilizar a expressão favorita da prima Marta Vaz. Raquel mandou confeccioná-la com seriguilha, a lã áspera, quente e forte com que as camponesas tecem as calças e as jaquetas de Inverno dos seus homens, o tecido é bonito, invulgar e, sobretudo, foi divertidamente provocativo mandar fazer uma capa de seriguilha, desse tecido ordinário, que deixou transidas de espanto as pessoas bem pensantes do Funchal. Raquel, demoniozinho insubmisso! Avô, querido avô, já ninguém me chama demoniozinho. (pp. 310/31)
Não somente no amor de Marcos, parceria inédita naquela época vitoriana, o demoniozinho construiu seu temperamento invulgar. Nas lições afetivas do avô André Villa, descendente direto de outro exuberante André Villa, emigrante da ilha de Malta que desembarcara na Madeira, no século XVIII, Raquel fortaleceu seu espírito desobediente e confiante. Explica-se, assim, a invasão da voz desse avô no discurso da narradora, seguida de repentina resposta da neta que, insubordinadamente, se apossa da enunciação e abafa a voz de terceira pessoa que ditava a escrita. Gesto de insubmissão próprio de personagens atrevidas que não se deixam conduzir apenas pelas mãos do criador:
A minha insubmissão limita-se agora a estes gestos gratuitos e inocentes. Mas lá no fundo, avô, lá no fundo, o seu demoniozinho insubmisso não aprendeu nada, não gosta de ser Penélope, fiando e desfazendo a teia em artimanhas de impotência. Avô, querido avô, a sua Raquel vai, muito provavelmente morrer sem ver Malta, os laranjais de La Valetta, as mulheres embrulhadas em faldettas, os Villas que ficaram na ilha natal. Entretanto avô, cometo o desaforo de ter saído quase sozinha, apenas na companhia do lacaio, desafiando os puritanos da cidade, batendo com a porta na cara de todos os parece mal. (p.31)
Desaforada, por vezes, Raquel aceita os subterfúgios que lhe cabem e cumpre, em seu tempo, uma outrasina: espera e aceita, porém questiona, procura respostas, sente-se livre para algumas escolhas:
Sorri, apesar de tudo. É feliz, apesar de tudo. Casou com quem quis e como quis. Teve a pequena, saborosa liberdade de recusar a segurança quase ofensiva com que Marcos lhe falara em casamento. Falara, não pedira. Vira-o partir sem ceder o menor gesto de simpatia, deixara-o seguir para um estágio em Londres sem uma palavra de esperança. Talvez devesse ter percebido, aí, que as fugas começavam. O caminho do mar tornava-se a opção do desalento, a cura das mágoas, o antídoto do tédio. E eu, meu Deus? Será inelutável o caminho de Penélope? (pp. 26/27).
A carismática personagem de O último cais, apesar de tudo, elegeu o homem com quem casar. Sua família não lhe determinou um marido, como ocorrera com outras personagens femininas do cenário textual, em cumprimento à usual ordem familiar da época. Raquel exerceu a saborosa liberdade de se recusar em casamento porque não admitia a imposição masculina que, mesmo ao final do século XIX, ainda entendia, subliminarmente, que o desejo de toda mulher solteira era casar-se, fosse para ser mais livre nas relações sociais, fosse por busca de segurança econômica. Qualquer “pedido” nessa direção, portanto, seria irrecusável a olhos masculinos.
No Portugal aristocrático do século XVIII e, mesmo depois, na sociedade burguesa, a tirania com a mulher solteira, em relação às regras de sociabilidade, era por demais acentuada. Não lhe era admitido o convívio heterossexual já, então, permitido à mulher casada. Além disso, os interesses materiais eram determinadores do casamento. Esse costume adquiriu em Portugal aspectos revoltantes. Até para uma mulher tão sensível como o foi a marquesa de Alorna, “os casamentos por inclinação eram ficção”[6]. Desejar o casamento, para jovens aristocratas ou burguesas, em finais do século XVIII e início do XIX, era uma forma de ampliação do espaço social a que estavam confinadas. As mulheres casadas possuíam maior liberdade de movimentação que representava um corte mais significativo com a ordem estabelecida.
É certo que, mesmo pertencendo a famílias de visão social mais ampliada, aberta a novos horizontes – é bom lembrar que a narradora só se ocupa, no tecido textual, em recordar histórias de ousadas mulheres, conservadas no coração e na memória de Carlota, sua informante, e, por conseqüência, está retratando um grupo social singular –, Raquel e Marcos recebem as influências do modus vivendi do universo que habitavam. A Marcos a resposta de Raquel, naquela primeira investida amorosa, causou-lhe óbvia surpresa.
Inicia-se, mesmo assim, nesse fato o processo de enamoramento, o estado nascente que unirá Marcos e Raquel, até que, verdadeiramente, a morte os separe. Francesco Alberoni, sociólogo e professor da Universidade de Milão, estudioso do relacionamento emocional entre duas pessoas, numa direção diferente de Stendhal e Roland Barthes, investiga-o não como amor ou paixão, mas como força que tende à fusão de duas pessoas diferentes[7]. O enamoramento, então, é a vontade de superação da diversidade que não apenas existe, como deve existir. A pessoa amada interessa porque é diferente, porque é portadora de uma especificidade própria e inconfundível[8].
A excepcionalidade de Raquel encanta Marcos que, já enamorado, se abre à revelação do seu próprio ser que diz sim, caracterizando esse momento da descoberta como o estado nascente, identificado por Alberoni tanto nos movimentos coletivos, como nas relações amorosas entre dois seres:
Na história, na vida social existem fenômenos peculiares – os movimentos coletivos – nos quais as relações humanas mudam radical e substancialmente e, em conseqüência, tanto a qualidade como a experiência da vida se transfiguram. (...) Em outras palavras, movimentos singulares que dão origem a um novo “nós” coletivo. No caso do enamoramento, o movimento se constitui somente de duas pessoas. Isso porque, em determinada estrutura social, o movimento divide o que estava unido e une o que estava dividido para então formar um novo sujeito coletivo, um novo “nós” que, no caso da paixão, é formado pelo par amante-amado[9].
O sociólogo propõe, portanto, reconhecer no enamoramento um estatuto inovador, que altera a vida cotidiana e a sexualidade porque, como todos os movimentos coletivos, se encontra no plano do extraordinário, do excepcional.
A trama amorosa de O último cais que enlaça, divide e une Raquel e Marcos acompanha a aventura do enamoramento desse casal por um curto espaço de tempo no presente da história. Os momentos da vida de cada um deles que antecederam ao recorte temporal estabelecido pela vontade da narradora, serão trazidos à superfície do enunciado pelas lembranças de Raquel, que tece na memória, diversamente da Penélope ulisseana, o tapete de sua existência. O tempo da vida do casal Vaz de Lacerda retratado na aventura ficcional é o tempo da excepcionalidade, da epifania, da celebração de um encontro seguro e inconfundível de amor, ancorado no interesse pelo diverso e na busca da unicidade que tornam cada um dos enamorados únicos, excepcionais e indispensáveis ao outro. Os significantes dessa unicidade, presentes na pessoa amada, destacam-lhe sua excepcionalidade:
Ela [a pessoa amada] é extraordinariamente única e extraordinariamente diferente, e o assombro do amor é encontrar resposta desse ser tão único e tão completo em si mesmo como nenhum outro. (...) só no enamoramento que nossa individualidade irredutível é apreendida e apreciada totalmente. Um sinal seguro e inconfundível do amor é essa apreciação da especificidade e unicidade da outra pessoa (...) Eis, então, o movimento da individualização[10].
O amor recíproco de Raquel e Marcos expressa o desejo conjunto de produzir a convergência de vontades promotora da fusão, outro movimento acionado pelo enamoramento em direção oposta ao da individualização, porque, como compreende Alberoni, a individualização diferencia, dá valor às diferenças, faz delas valores absolutos, faz com que as preferências de um sejam , para o outro, leis e modelos ideais, que as próprias preferências adquiram um valor essencial[11].
No retorno ao Funchal, depois de afastamento de um ano que impede o amor de Marcos e de Raquel à penetração na cotidianidade, o avivar das chamas ardentes da sexualidade promoverá, desde então, um caminho novo para o enamoramento, agora maduro e revolucionário:
Deita-se nu, procurando o corpo de Raquel. Beija-lhe as palmas das mãos, os olhos, o pescoço, a boca, apaixonadamente, enquanto as mãos reencontram o redondo dos seios, o ventre muito liso, as pernas longas e o seu segredo. Sente os braços de Raquel fecharem-se nas suas costas, os lábios responderem aos seus lábios, o corpo colar-se ao seu corpo (p.51).
Nessa fusão amorosa, depois de treze anos de vida conjugal, o amor dos dois experimenta um novo despertar na epifânica descoberta do segredo de Raquel, tanto por Marcos, como por ela própria. A cena realiza-se no bloco narrativo, em forma de capítulo, dedicado a Marcos. Sobre ele, suas ações e seus pensamentos, a onisciência do narrador jorra sua luz. No entanto, é Raquel quem comanda os movimentos ondulantes do sexo na navegação amorosa em que se envolvem:
Não houve hesitação, nem espanto, nem quaisquer palavras, mas um imediato reconhecimento, uma imediata adesão ao seu desejo, à sua avidez, à sua fome. É ela quem atira a camisa de noite para o chão e é ela quem o detém, por segundos, para que possam olhar-se, oh Marcos, meu amor, foi tanto tempo!, procura-lhe o fundo dos olhos, as manchas verdes da alegria estão lá, semeadas nas pupilas cor de mel, e ele, por sua vez, encontra o cinzento dos olhos de Raquel diluído numa luz perturbada e quente, estão juntos por fim, (...) pp. 51-52.
Nessa viagem Raquel é comandante e, determinadamente, traça a rota a empreender:
Marcos sente-a húmida e expectante, não consegue esperar mais, vai entrar nela, tê-la toda, é ele agora quem murmura Raquel, querida, foi tanto o tempo! Mas de novo ela lhe interrompe o gesto e o ímpeto, deixa-se ficar colada ao seu corpo, faz movimentos lentos e determinados,(...) p.52.
Transportados para uma esfera de vida superior, o casal Vaz de Lacerda penetra na experiência do enamoramento onde a escolha é entre o tudo e o nada. É como se conseguissem tudo aquilo que na vida quotidiana é impensável: um reino, o poder, a felicidade e a glória[12]. Tudo, como sente Marcos, é delicioso e excitante, mas não é nada comparado com a violência do prazer que os movimentos dela lhe despertam (p.52). Raquel, agora, já não é mais Penélope. Navega nas águas de Eros e saboreia a ventura do corpo, levando Marcos, seu tripulante, também a descobrir, para seu ilimitado prazer, que o corpo dela nunca foi assim tão doce nem tão acolhedor, nunca envolveu o seu com tanta força e tanta brandura, nunca desencadeou um tão desmedido esplendor (p.52).
Sujeitos no amor, não há mais a distinção entre sujeito/objeto do desejo, por isso vivenciam a comunhão absoluta porque, como reconhece Marcos, sem a perseverança dela, sem a sua coragem na procura, nunca teriam atingido a plenitude da sua relação física.
Doravante, viverão o tempo de todas as delícias divididos entre a madrugada que passou e a noite que se aproxima (p.53). É o tempo da excepcionalidade, do extraordinário que envolve os enamorados. A espantosa descoberta que o amor de antes ainda não experimentara realizou-se graças à ousadia e à tenacidade da mulher de Marcos, traços fundamentais para os que desejam encontrar uma vitalidade nova:
A verdade é que aquele que vive a vida quotidiana não pode alcançar aquela intensidade espasmódica do desejo e da vontade que produz a felicidade. Para fazê-lo, deve romper com a vida quotidiana, atravessar o rio proibido da transgressão[13].
Envolvidos pelo canto das ondas e as harpas do luar (p.53) que aquela iluminada madrugada entoou em suas vidas, Raquel e Marcos atravessam o oceano em direção às Guianas, rompendo definitivamente com os laços que a amarravam a uma existência insular. Já transportava no ventre a semente de Clara, gerada na esplendorosa madrugada das grandes descobertas. Vivem intensamente o presente que é a dimensão do amor que encontra seu objeto, é o momento que vale toda a vida passada e todas as coisas do mundo[14]. Esse “parar o tempo” é a felicidade. Raquel reconhece, por isso, estarem ela e Marcos abusando ultimamente das palavras feliz e absoluto (p.86).
O amor dos dois, marcado pelo extraordinário, pelo invulgar, pelo excepcional, teria duas direções a tomar: ou a trivialidade cotidiana ou a morte que é, na concepção de Alberoni, como a arte representa o tempo de felicidade que faz os enamorados lançarem-se para ele, sem a certeza do futuro[15].
Raquel, tecelã silenciosa de pequenas mas substanciais insurreições, oferece razões para realizar, também, sua travessia para os mares da palavra literária. Escolhe o homem com quis se casar, recusa-se a abrir mão de seu nome familiar, expressa suas esperanças na Democracia, suas contrariedades com o pensamento eclesiástico, alegra-se com as conquistas sociais das jovens nos espaços públicos e, transgressoramente, descobre, como sujeito de seu desejo, a alegria esfuziante do gozo, naquele presente eterno em que cessa qualquer questionamento. Por seu caráter excepcional, conheceu no corpo do amor, o seu próprio corpo, sem obedecer às normas dominantemente masculinas e opressoras que submetiam as mulheres de sua época, aos destinos cruéis que lhe reservavam – o da histeria e o do masoquismo.
Pelos caminhos do amor, entretanto, no encontro inusitadamente feliz com Marcos, resta-lhe a separação pela morte que lhes impedirá a entrada na vida cotidiana, espaço dialético da tranqüilidade e do desencanto, oposto ao do enamoramento, pleno de êxtase e de tormento. A morte é, pois, o significante artístico do fim do tempo que a alma enamorada experimenta. É uma invenção maravilhosa que tem o poder de evocar em nós todo o espasmo da busca do amor [16]. A morte não interromperá o processo de enamoramento. Tornará o amor dos dois imortal e sagrado, porque lugar da concretização da parada do tempo, contando para isso com a linguagem da arte.
A linguagem literária, sabedora de seu próprio poder de violação das leis da vida, transgressoramente, eterniza e faz desse amor um fio narrativo permanente nas teias do romance que prossegue sem a presença física de Raquel. Se Marcos foi para Raquel um porto onde pôde ancorar suas esperanças numa nova relação entre a mulher e o homem, mais cúmplice e autônoma, Raquel promove em Marcos a derradeira aportagem de seu coração, que, embora passageiro de novas viagens afetivas durante o restante de sua vida, aguardará, espectante, que o sonho e a literatura lhe promovam, em seu último desembarque na vida, o reencontro com a mulher que nele despertou o estado nascente que aviva, empolga e torna texto “escrevível” a existência humana:
Lembra-se de súbito de que está velho, tem mais de sessenta anos, e a mulher que avança, correndo, pelo cais é bela e jovem como na madrugada em que se amaram e se descobriram (...) Olha para as mãos num desespero mudo e vê que desapareceram as manchas castanhas que marcam inexoravelmente as mãos dos velhos(...) enverga a farda de médico-cirurgião da Armada e, mesmo sem espelho, sabe, tem a certeza de que regressou também à madrugada de Dezembro em que reencontrara Raquel num paraíso desconhecido. Salta do escaler e sobe, dois a dois, os degraus do cais. (p.192)
ALBERONI, Francesco. Enamoramento & Amor. Rio de Janeiro: Rocco, 1992.
LOPES, Maria Antónia. Mulheres, espaço e sociabilidade – A transformação dos papéis femininos em Portugal à luz de fontes literárias. Lisboa: Livros Horizonte, 1989.
MACKENZIE, John. Dicionário Bíblico. São Paulo: Edições Paulinas, 1983.
NUNES, Silvia Alexim. O corpo do diabo entre a cruz e a caldeirinha: um estudo sobre a mulher, o masoquismo e a feminilidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.
* O presente texto é parte de um capítulo que estuda a obra O último cais, de Helena Marques, na tese O amor e a pena feminina – escrita feminina e transgressão amorosa a ser defendida ainda este ano, na UFRJ.
[1] NUNES, S. 2000.
[2] MARQUES, Helena. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1994. Todas as citações foram retiradas dessa edição.
[3] MACKENZIE, John. 1983, p.772.
[4] Id., ib., p.143.
[5] Id., ib..
[6] LOPES, . p.115.
[7] ALBERONI, F. 1992, p.25.
[8] Id., ib., p. 25.
[9] Id., Ib., p. 7.
[10] Id., ib., p. 25.
[11] Id., ib., pp.25-26.
[12] Alberoni, op. cit., p.29.
[13] Id., ib., p.30.
[14] Id., ib., p.24.
[15] Id., ibidem.
[16] ALBERONI, op.cit., p.24.